Foi-se o tempo que a sacanagem acontecia quase diariamente. Eu e Alice estamos em fases no mínimo, complicadas de nossas existências.
Mas a sorte é que olhamos a quanto tempo não postávamos e, surpresa!
Temos ainda muita coisa acumulada. Por que os cães ladram mas, a caravana passa.



sem festa

A luz baixa, um copo de cerveja na mão. A banda tocava um jazz, e eu, nada para fazer, procurava por ele ? casaco vermelho, com zíper.
O som do baixo, e eu. Ali. Ele está ali descendo a escada. Vou, no ritmo da música.
- Quer um gole?
- Não fica muito perto de mim.
- Por que?
- Por que você sabe que eu não posso te beijar aqui.
- Tudo bem. Dança comigo?
- Fica ali, com os seus setenta amigos. Daqui a pouco eu apareço.
Um solo de sax. A galera esquenta. Alguém tira o cigarro da minha mão. Olho.É ele.
- Você não fuma.
- Só quero um trago.
- Já deu o trago. Devolve que eu preciso dançar com meus setenta amigos.
- Vem aqui.
Proposta no ouvido. Duas sombras passeando pelos corredores, procurando um lugar. Um lance de escadas, uma porta.
- Vai tirar minha calça aqui?
- Você já tá com a mão dentro da minha calcinha.
- Mas você está de saia.
- Tudo bem. Não tiro teu cinto.
- Tira sim.
A banda pára. Aplausos abafados.



Ele reclamou de pudores. Mas que pudores? Fui parar na cama dele na segunda vez que nos encontramos e só por que quando fui tomar banho me enrolei na toalha eu tenho pudores?
Todo mundo se enrola na tolha, mesmo quando tá sozinho em casa. Ninguém fica passeando pelado com a toalha na mão, né?



Mas não me beije com essa boca de bom moço...

Estranho esse negócio de beijar alguém que você sabia que ia beijar um dia mas sabia também que não era aquela hora. Cria-se uma puta expectativa.
Dia desses aconteceu. Já tínhamos ficados sozinhos várias vezes, mas o beijo nunca tinha rolado. Tinha quase, várias vezes. E o cara é um gentleman, um cavalheiro louco, não dava para prever que tipo de coisa iria sair dali.
- Eu vou pra casa.
- Te levo.
- Não precisa, eu pego um táxi.
- Faço questão.
Então tá. Vamos. Frio na barriga, quase dói.
- Minha casa é aquela ali, portão verde, do lado da placa.
Nessas horas não dá vontade de amarelar? Sair correndo, adiar?
- Então, tchau.
- Tchau.
E fala tchau me pegando pela cintura e me olhando no olho. Porra, tocou o alerta, agora, não adianta querer sair. Quando isso acontece, eu fico logo com um puta frio na nuca. Frio mesmo.
- ...
- ...
Beijo. Que beijo. Mas no início, meio vacilante. No início, aquele acerto de contas entre as bocas. Tesão.
Não precisa me beijar com essa boca de bom moço, pode vir.
E esqueci minhas meias do lado da cama dele.




Pro meu retorno.
Não sei, não. Mas acho que não consigo ser fiel. Simplesmente não dá. Na verdade, acontece que tantas pessoas bonitas, interessantes, agradáveis, tanto amor eu tenho por elas (e tesão por algumas também), que se torna quase impossível me dedicar somente a uma pessoa. Essa coisa de traição, aliás, é super relativa. Porque na minha concepção, traição é uma palavra muito forte. Acho que seria talvez uma infidelidade, isso de estar com alguém mais ou menos seriamente e ficar (leia-se beijar ou até "algo mais") com outra pessoa. E fidelidade, amigo, em especial devemos a nós mesmos. É uma questão de escolha e sentimento. Porque eu acho, sim, que um dia vou ser capaz de ser fiel. Mas isso só vai acontecer quando eu sentir vontade de ser, quando a pessoa com quem eu estiver me inspirar esse tipo de sentimento, que será, talvez,uma necessidade tão grande quanto a que eu tenho hoje de conhecer novas bocas, novas idéias, novos corpos e mentes. Por enquanto vou tentando deixar claro pra quem se envonlve comigo que não deve esperar exclusividade e vou não sendo exclusiva. Mas um dia sei que não terei mais essa necessidade, assim como já não tive um dia.
E você, é fiel a quem?





Tenha a dor. Mas não. Prefere não ter nada. Enfim, apenas querer, mais uma vez. O desejo é a mais infantil das manifestações.
Você aparece na minha vida de balão, patins, e às vezes, de veleiro. Nunca marca hora ou diz que vem. A dúvida é : Vem por acaso, ou se surpreende tanto quanto eu? Quando abre os olhos na minha cama, vê que sou eu. Mas esquece como chegou. Não existe saudade ou melancolia na tua partida. Ela é anunciada, e você sempre vai a pé.



MANIFESTO CONTRA A GILLETTE

Nada contra Gillette for Woman. Jamais. Eu e Alice preferimos cera quente, mas às vezes uma gillette salva a nossa existência. O problema é a publicidade dos aparelinhos para homens. A última propaganda da Mach 3 é de doer. Vários homens bem barbeados, cercados de mulheres maravilhosas, e uma voz em off dizendo: Se você não faz isso por você, faça por ela. Mas calma aí. Quem disse que gostamos de homens com a pele do rosto lisinha??? Isso é tão ultrapassado quanto ombreira, calça de cintura alta e topete.
Homens de barba são sexy. Homens de barba tem cara de mau. Homens de cavanhaque sempre têm cara de cafajeste. Isto é, homens de barba sempre te olham daquele jeito, que dá um geladinho na espinha.
Noves fora (afinal tem sempre aquele tiozão de terno da Rua da Alfândega que usa barba.), o Homem de barba nunca põe a camisa para dentro da calça, ou usam mocassim. Existe a grande possibilidade de eles serem músicos, poetas, cineastas, ai ai.
A barba roça no pescoço. Chico Buarque já falava isso. Aliás, o Chico fica ótimo de barba. Mas ele não precisa.
A barba não precisa ser de Hermeto Paschoal, aliás, a barba ideal varia de homem para homem. Mas se você quer aderir, um tamanho bom varia entre o Geoge Clooney em Ocean’s Eleven e Che Guevara (antes de ser preso na Bolívia, né, galera?).
Mas o último e mais feroz argumento é que a barba é um ótimo meio de identificar gays. Gays dificilmente usam barba. E ultimamente, neste mundo de homens sensíveis é difícil saber se ele quer uma boa trepada ou uma companhia para a Babilônia Feira Hype. Homem, mesmo que gay, odeia a barba de outro homem no cangote. Por tanto, amiga, invista no barbudo, que é quase garantido. Olha bem que eu não falo de bigode, vide Freddy Mercury e Man at work. Por tanto, mulheres, uní-vos, neste glorioso dia e joguem fora a Gilette de seus homens!